O futuro de sua educação e de seu emprego – parte 1

As profissões estão em processo de preocupante mudança. Sei que você já ouviu isso, mas se tem alguma dúvida a respeito deveria conhecer o trabalho de Daniel Susskind (The future of the professions: how technology will transform the work of human experts. Oxford University Press, 2015). Por que se fala tanto de inteligência artificial, aprendizagem de máquina, internet das coisas (IoT) e de blockchain? O que é Learning analytics e adaptive learning? O que são métodos ativos de ensino e de aprendizagem? Por que se dá, neste momento, tanto destaque a esses assuntos, nas suas respectivas áreas do conhecimento?

Algumas competências importantes para este século

É bem provável que o que você lerá nas próximas linhas não pareça de valor imediato. Fique à vontade para pensar assim. Mas considere analisar esses tópicos com uma abertura de ponto de vista, pensando em se preparar para um momento de transformações que poderá ser avassalador para algumas profissões.

  • Outros idiomas: apenas 20% dos americanos aprendem um segundo idioma, enquanto 100% dos noruegueses e escandinavos o fazem. Se você já foi à Europa, sabe da seriedade que os países nórdicos dão para o Inglês. O multilinguismo é competência de valor, independente do uso efetivo do idioma. A aprendizagem de outro idioma exercita uma lógica e raciocínio únicos para um aprendente de qualquer idade. É como a aprendizagem do Latim – não se aprende pelo Latim em si, mas pelos recursos pedagógicos da prática da aprendizagem. Idem para as linguagens de programação (veja a seguir).
  • Computação (algoritmos e programação): não falo da aprendizagem de tecnologias digitais como um fim em si mesmas, mas como meio para outros tipos de aprendizagem. Não falo de projetores multimídia e PowerPoint, nem de lousas eletrônicas (prefiro uma boa e velha lousa de giz). Falo de lógica e de algoritmos, de programação e do entendimento de heurísticas como transferência de aprendizagem, como recursos de pensar sobre o pensar (metacognição).
  • Modelagem e simulação: é preciso entender o mundo e seus problemas por meio de sua modelagem, de sua representação. A partir disso podemos simular variáveis em busca de soluções ótimas e tomadas de decisão otimizadas.
  • Comunicação verbal e escrita: há diferença entre o Português informal e aquele acadêmico e profissional (não me venham com esta conversa fiada de “preconceito linguístico” – isso é válido para a educação básica, mas não para a formação de profissionais para o mercado de trabalho!). A comunicação profissional é de extremo valor – argumentação, retórica, pensamento crítico. Há que se saber defender pontos de vista, de forma sólida e profissional.

Em artigos anteriores já falei que os antigos sabiam muito desse tipo de educação, que prepara para a vida e não para a escola (Sêneca). As Artes liberais, o Trivium medieval (gramática, retórica e dialética) e mesmo a Paidéia grega em muito contribuíram para a formação de cidadãos do mundo, independentemente de sua área de atuação. Meu artigo anterior sobre STEM (ou STHEM, como querem alguns) tratou de algumas questões relacionadas e pertinentes. O futuro da educação já chegou. Apenas não percebemos.

Momento de crise. Em tudo. Inclusive nas justificativas para que se estude. É comum escolhermos uma área de estudo, muitas vezes investindo financeiramente, sem ter uma dica sequer do que se encontrará no mercado de trabalho ao final do curso (o “mundo real”, se assim quiserem). Alguém sempre dirá o que deve fazer, sem muita abertura para que você também participe dessa decisão (o velho e tradicional ‘currículo’ a ser cumprido). Mais: o famigerado processo educativo baseado em aulas tradicionais e em avaliações na maioria das vezes sem base pedagógica alguma (não se esqueça que muitos de seus professores não tiveram formação pedagógica mínima!). A memorização vale mais que a solução de problemas. Triste.

Algumas dicas para você que se preocupa com o assunto

Algumas delas tem origem no excelente livro de Bryan Caplan (“The Case Against Education”). Vamos lá:

  • 80% do valor de um diploma vem do que o mesmo sinaliza para o empregador, e não das competências desenvolvidas durante o curso pelo aluno. É por isso que você precisa se mostrar, especialmente se não teve a oportunidade de estudar numa escola de elite e controladora do processo de ingresso dos candidatos, como é o caso do Brasil (aqui posso dizer algo, pois tive o privilégio de ter sido patrocinado pela sociedade paulista quando estudei na Universidade de São Paulo e na Universidade Estadual de Campinas, em minha formação de nível superior. Mas sei, também, que é possível se destacar mesmo sem um desses diplomas, desde que você consiga comprovar competências necessárias ao cargo ao qual se candidata).
  • Mas temos um problema aqui: mesmo o fato de se possuir um diploma não ajuda muito, quando a maioria dos seus concorrentes também o têm (Caplan chama isso de “jogo de soma zero”).
  • É preciso considerar que existem hoje inúmeras possibilidades de formação baseadas em tecnologias digitais. Você pode cursar componentes acadêmicos em Harvard ou no MIT, desde que tenha interesse e disciplina. Aproveite.
  • Velho paradigma, novo paradigma: antes de escolhia uma área do conhecimento e se formava nela. Para mim foi assim, inicialmente. Mas descobri que é possível combinar competências de múltiplas disciplinas e, assim, criar um perfil poderoso de profissional pronto para um mercado de trabalho exigente, e cada vez mais.

Em suma, é preciso se preparar para um ambiente de competição por trabalho exigente, mas é possível acessar os recursos para isso. Depende apenas de você.

Falarei mais disso nos próximos artigos. E um pouco mais do trabalho de Susskind (futuro das profissões), que motivou este texto.

03.01.2020

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