Espaços Maker, STEM (Science, Technology, Engineering, Mathematics) e a educação contemporânea: de volta ao passado?

Em meados da década de 1990 conheci a área de tecnologia aplicada à educação. O sistema Logo, as ferramentas de produtividade pessoal e profissional. Informática pessoal. Em 1997 tive a oportunidade de conhecer o MIT Media Lab, lar do próprio Logo e de seus descendentes: o StarLogo, os kits Mindstorms de robótica educacional, o Scratch e a promessa de comunidades de aprendizagem. Agora fala-se de STEM e de Espaços Maker.

Já escrevi sobre os kits de ciência da década de 1970. Marcaram fortemente muitas crianças e jovens que a eles tiveram acesso (como eu). Tento me lembrar, neste momento, de fatos que marcaram minha educação básica. De professores que me moldaram de fato. Do que foi realmente útil em minha vida futura. Os kits fizeram parte da listagem que tentei escrever, mais do que as aulas de Física que fui forçado a assistir, sem nenhuma motivação e com professores, às vezes, péssimos.

Agora a bola da vez é o STEM (sigla para Science, Technology, Engineering, Mathematics), quando imaginamos uma educação que tenta reencontrar na ciência e na tecnologia o incentivo para a formação de uma geração de alunos inovadores e criativos. Fruto, certamente, da preocupação com o futuro próximo da humanidade, que sofrerá invariavelmente com a competição das máquinas e da inteligência artificial nos processos de trabalho e de emprego. Também as economias mundiais sabem que dependerão da inovação e da criação de novos mercados para que possam manter alguma margem de crescimento, num cenário em que potências econômicas lutam permanentemente para, ao menos, manterem suas áreas de influência de comércio global. Defensores das humanidades recomendam a inserção de um “h” na palavra: STHEM.

Mas o que crianças e jovens que sabem montar e programar dispositivos eletrônicos e de robótica farão com isso? Usarão tais competências para resolver problemas reais? Ou serão apenas capazes de criar engenhocas, sem as aplicar à solução de problemas reais? Isso me lembra do já citado ensino de Logo nas escolas, nos anos 1980 e 90. As crianças eram capazes de desenhar lindos padrões geométricos, mas o que aprendiam, de fato, com isso? O criador da metodologia, Seymour Papert, queria que tal atividade desenvolvesse construtivamente a cognição das crianças e seu raciocínio para a solução de problemas. Em minha humilde experiência, vi professores em laboratórios de informática mostrando os comandos às crianças, sem que eles mesmos entendessem o que estava sendo feito e o que se pretendia com aquilo.

Num momento histórico de ceticismo em relação ao real preparo que a educação formal e oficial dá para vida (como disse Sêneca, Non scholae sed vitae discimus – aprendemos para a vida, e não para a escola), é natural que busquemos alternativas de formação das futuras gerações. Mesmo que as pesquisas comprovem que existe apenas uma correlação entre o nível de investimento em educação de um país e seu respectivo desempenho econômico (sabemos da Estatística que correlação não é causação), é também notório que as empresas e os empregadores ainda valorizem o diploma formal e oficial no momento de contratar algum profissional (mesmo sabendo que o simples diploma não é garantia de desempenho profissional no nível desejado – afinal, as escolas costumam trabalhar bem a teoria, e não necessariamente a solução efetiva de problemas).

Acredite: você precisará mostrar suas competências reais, sua habilidade em resolver problemas e entregar trabalho. É isso que as empresas e instituições buscam, de fato. Para isso recomendo: aprenda mais de uma área do conhecimento. Ache as relações entre elas. Mantenha seu curriculum em mudança permanente, flexível e de acordo com os rumos que o mundo e o mercado de trabalho tomam. Estude a teoria, mas saiba aplicá-la na solução de problemas reais. Ninguém me convence do contrário: a regra do 20 – 80 se aplica facilmente aos sistemas de educação formal ou escolar. Ou seja, apenas 20% do que se ensina ou se trabalha num programa planejado de curso geram 80% dos resultados aplicáveis ao ambiente externo onde o sujeito buscará trabalho ou emprego (chamem como quiserem, para mim é a mesma coisa). Repare na quantidade de disciplinas e matérias auxiliares que você teve em sua formação, que não servirão para absolutamente nada quando se espera de você a solução de problemas das empresas contratantes. Uma imersão em disciplinas específicas seria suficiente para a formação de profissionais altamente capacitados para o mercado de trabalho. Por isso os bootcamps de programação geram tanto interesse nos EUA.

A proposta de STEM traz consigo este tipo de preocupação. Basta saber o foco de trabalho é correto, ao contrário das outras promessas tecnológicas já citadas.

Continuarei esta conversa no próximo artigo.

 

02.01.2020

02.01.2020

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