Falando de Educação (uma vez mais)

Estamos num ponto de saturação no debate sobre o que deve ser a educação contemporânea. Já deveríamos saber, pois estamos discutindo o assunto há, pelo menos, 2500 anos.

Mas motivações políticas, ideológicas, de incompetência e de interesses escusos barraram os necessários consensos. De fato, os gregos já tinham proposto algo que se pudesse chamar de educação (a Paidéia). Os educadores da Idade Média também já sabiam o que deveria ser a educação (o Trivium e o Quadrivium). Comênio apresentou algo semelhante (em 1637), a que chamou de Didática Magna. Os filósofos da educação Rousseau e Pestallozzi também inovaram no tema. E os primeiros teóricos da educação (como Herbart) garantiram suas propostas científicas.

Por que não conseguimos, então, implementar um modelo digno e eficaz da mesma? Por que tanto debate e discussão? Por que tanto resultado abaixo do aceitável, apesar de tanto investimento?

CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA EDUCAÇÃO REFLEXIVA, MAS APLICADA

Como pode ser visto na introdução de minha tese de doutoramento na UNICAMP (sob a orientação do professor Eduardo Chaves, que me sugeriu este texto), um ser humano educado deveria ser, de fato, um híbrido de filósofo e de engenheiro. Filósofo para não perder de vista a dimensão maior (o “por que” e o “para que” se educar: desenvolver-nos como pessoas, como cidadãos, como profissionais, tornando-nos capazes de aprender em todos os momentos e durante toda a vida, e aplicando o que aprendermos na solução de nossos problemas e na busca por uma vida bem vivida), e engenheiro para se preocupar com as questões práticas do “como educar”, sem se deixar perder nas discussões mais profundas do filósofo. A pessoa educada está, assim, na junção do logos do filósofo com a techné do engenheiro.

CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA EDUCAÇÃO BASEADA NUM PENSAMENTO DE ORDEM SUPERIOR

Uma possibilidade muito interessante para um modelo de educação contemporâneo seria educar para:

  • Capacidade de transferência (não apenas lembrar de fatos, mas poder utilizar o que se aprendeu em solução de problemas reais);
  • Pensamento crítico e racional (saber no que acreditar e o que fazer de forma aceitável);
  • Solução de problemas: um problem solving framework – saber exatamente do que se trata o problema, seguido da análise reflexiva das opções e posterior avaliação de resultados, finalizando com a implementação da melhor opção – sempre evitando-se vícios de raciocínio (reasoning biases);
  • Pensamento científico: detecção de misconceptions (o que as pessoas sabem sobre conceitos, fatos ou fenômenos, mas muitas vezes de forma errônea) e, também, os passos para que as pessoas resolvam problemas de forma científica: o senso comum (influências do modo de ver o mundo e agir/pensar pelas experiências anteriores), a proposta de hipóteses, o teste de hipóteses (predições sobre a forma como as coisas acontecerão) para se verificar se uma proposta de solução é verdadeira (busca de evidências por pesquisa, observação ou experimentação) e a avaliação de evidências.

Nossos alunos deveriam buscar ideias em tudo. Eu mesmo aprendi a fazer isso. É impressionante como tudo tem algo a dizer. Quando estiver numa fila, ou esperando pelo embarque num aeroporto, observe e analise as pessoas e os fatos ao seu redor. Cada uma tem uma história em desenvolvimento naquele lapso de tempo, e você pode aprender com isso, mesmo que seja um mero exercício de imaginação. Por que aquele senhor está apressado e ansioso? O que teria acontecido? O que vai acontecer a seguir? O que a funcionária da empresa aérea está fazendo? Como poderia ser feito melhor? Alguma oportunidade de melhoria daquele processo? A partir do mundo cotidiano podemos transferir a análise de problemas para um nível mais acadêmico e escolar.

Existem problemas de pesquisa em qualquer lugar! Em cada detalhe do cotidiano. Incentive a leitura e a redação. Analise o estilo dos seus autores favoritos. Eu faço isso com os meus: Edgar A. Poe, Júlio Verne, Jorge Luis Borges, René Descartes, Érico Veríssimo, Euclides da Cunha.

Em Americana, junho de 2019.

 

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