Modelagem, Simulação – Aprendendo Sobre o Mundo

You can’t think seriously about thinking without thinking about thinking about something.

— Seymour Papert

Existe um velho ditado, muito citado nos trabalhos de língua inglesa, que diz algo como: “ – Dê a uma pessoa um martelo, e o mundo todo parecerá um prego”.

Uma das possíveis interpretações desta frase poderia ser: a forma pela qual enxergamos o mundo é diretamente influenciada pelas ferramentas e meios de que dispomos em determinado momento histórico. Se dermos apenas lápis e papel a um cientista, como suas ferramentas de trabalho, isto o levará a ver o mundo no formato de equações diferenciais. Conclusão direta deste fato é que se tivermos novas ferramentas e meios de trabalho, poderemos apreciar o mundo sob uma nova ótica.

Mitchel Resnick, do MIT, mostrou que as noções arraigadas de poder central e de mindset (visões de mundo, modelos mentais) centralizado são característicos de nossa educação e do desenvolvimento do nosso senso comum. Crescemos com a noção de que é necessário um controle centralizador para que as coisas aconteçam. Isto vale para governos, para formações de pássaros, para congestionamentos de veículos, e para formigueiros. Cabe-nos aqui discutir os efeitos políticos, sociais e epistemológicos do pensamento centralizado, bem como a visão alternativa de um mindset descentralizado, como o proposto por Resnick (vide RESNICK, Mitchel. Turtles, termites and traffic jams. Cambridge: MIT Press, 1997). A visão de complexidade e de auto-organização talvez seja a próxima revolução na gestão de negócios, como vários autores já apregoam. A própria educação prevê a existência de um ente centralizador, na figura do professor, que teoricamente “ensina”, enquanto os demais componentes do sistema (os alunos), dominados pelo agente detentor do controle, “aprendem”.

Aprendizagem por Modelagem

A modelagem, que é a representação da realidade através de modelos, é atividade permanente na vida do ser humano. Quando modelamos alguma coisa, fazemos de conta que dominamos esta coisa. Nos damos os poderes de representar sua realidade, e de simular suas características e funções.

Quando criança, eu adorava representar a realidade através do desenho, da massa de modelar, dos carrinhos em miniatura, dos soldadinhos, dos kits de aviões e navios de plástico, dos aeromodelos controlados por cabo, e mesmo de brinquedos mais avançados como simuladores de equipamentos eletrônicos, que não deixam de ser modelos de dispositivos maiores. Lembro-me da admiração que senti ao ver, numa exposição, uma cidade construída de caixas de fósforo, e também das ferrovias em escala que vi orgulhosos construtores exibindo.

Os computadores também modelam e simulam. Os exemplos citados acima, extraídos do trabalho de Resnick, e que são pedagógicos, científicos, do dia a dia, demonstram que atividades de modelagem computacional poderiam auxiliar pessoas comuns e gestores de negócios na passagem de modelos mentais centralizados para visões descentralizadas do mundo e dos negócios. Novos insights e apreciações inovadoras seriam, então, providos pelo emprego de tais ferramentas e métodos.

Para tal tarefa, há que se adotar alguns princípios centrais, característicos da modelagem descentralizada: encorajar a construção de modelos (e não apenas a manipulação dos modelos já existentes); repensar o que foi aprendido (e não apenas como é aprendido); estudar as possibilidades de conexão pessoal entre assuntos (e não apenas as abstrações matemáticas); e, finalmente, focar na estimulação, e não apenas na simulação.

Este é um novo tipo de projeto: o designer controla as ações das partes, e não mais do todo. Os padrões resultantes não podem ser previstos ou projetados, já que são resultantes de um processo de emergência de comportamentos individuais. Tal iniciativa, a de permitir às pessoas uma nova forma de aquisição de conhecimento, através da construção de artefatos, foi citada por Seymour Papert como sendo de intensa influência em sua própria formação. Estas idéias construtivistas (a partir do trabalho de Piaget, seu mentor nos anos em que com ele trabalhou na Suíça) acontecem já na sua infância, quando componentes mecânicos e engrenagens influenciaram seu interesse na construção de artefatos. Nas suas palavras:

“I believe that working with differentials did more for my mathematical development than anything I was taught in elementary school. Gears, serving as models, carried many otherwise abstract ideas into my head” (PAPERT, 1980).

O interesse de Papert pelas engrenagens modela sua visão construtivista do aprendizado; para ele, o entendimento do processo de aprendizagem deve ser genético, já que se refere à gênese do conhecimento. O que um indivíduo pode aprender, e como ele aprende, dependem dos modelos de que dispõe. Retornamos, assim, à proposta inicial deste trabalho, que defende o contato com novos modelos de realidades pelos gestores de negócios e pelas pessoas comuns.

Para Papert, os computadores podem gerar inúmeras formas de representação, diferentemente dos artefatos materiais e analógicos. Sua essência é universal, inclusive seu poder de simulação. Seu modelo epistemológico compartilha a conotação de aprendizagem como sendo a construção de estruturas de conhecimento, independentemente das circunstâncias deste aprendizado. E acrescenta a ideia de que o aprendente está inserido num contexto de engajamento consciente na construção de uma entidade pública, seja esta um castelo de areia na praia ou uma teoria do universo (Harel & Papert, 1991). Para nossos propósitos, um modelo de mercado seria um excelente exemplo desta discussão.

Dentro da proposta piagetiana de pensamentos concreto e formal, Papert acredita ser o computador um meio de se concretizar o formal. Conhecimentos que eram trabalhados apenas através de processos formais podem agora ser acessados concretamente. A educação tradicional não trabalha esta questão de forma sistemática. Ambientes ricos em computação podem alterar este quadro, pelo emprego de modelagem e simulação.

 

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