FALANDO DE EDUCAÇÃO E DE TECNOLOGIA: OU DE MEIOS E FINS

Nós, seres humanos, somos dotados de algumas características interessantes. Primeiro, não nascemos prontos para a vida, mas ignorantes e incompetentes e dependentes dos cuidados alheios. Em segundo lugar, nossa natureza não é totalmente programada, e permite que cada um de nós decida o que ser e o que fazer na vida, pelo menos em ambientes democráticos. Nossa vida é, portanto, projeto, pois permite decisões próprias para o futuro.

O chamamos de educação, desde que foi inventada como processo sistemático, é a forma pela qual os seres ignorantes e incompetentes que somos, ao nascer, se transformam continuamente em seres menos ignorantes, relativamente competentes e capazes de definir com autonomia o projeto de vida e a estratégia necessária para transformá-lo em realidade. Embora haja um sentido importante em que nascemos humanos, só a educação nos faz assim. Do ponto de vista psicológico, social e cultural tornamo-nos humanos à medida em que vamos definindo o nosso projeto de vida.

Em terceiro lugar, nascemos com a surpreendente capacidade de aprender. Os seres nascidos ignorantes e incompetentes têm na educação a possibilidade de construir conhecimentos e desenvolver competências que permitem realizar um projeto de vida autônomo, e a educação só é possível porque possuímos essa notável capacidade. Aprender não é, portanto, simplesmente incorporar informações ou conteúdo. Aprender é tornar-se capaz de fazer aquilo o que antes não se conseguia, como buscar padrões, pensar de forma crítica e criativa, abstrair o essencial do todo, analisar e sintetizar conceitos, elaborar generalizações, construir modelos, simular, inventar métodos para resolver problemas e derivar dos nossos modelos mentais as formas de agir ancoradas na realidade.

Por último, mas não menos importante, possuímos a intrigante capacidade de inventar tecnologias. Tecnologia, em sentido amplo, é tudo aquilo que o ser humano inventa para tornar a sua vida mais fácil, ou, então, mais agradável. Há tecnologias que são ferramentas – coisas que são úteis e que facilitam nossa vida porque nos ajudam a fazer aquilo que precisamos ou desejamos fazer. Mas também há tecnologias que são brinquedos – coisas que não são úteis e que não facilitam a nossa vida, mas que nos dão imenso prazer. As artes são tecnologias desse tipo. As tecnologias que são ferramentas nos ajudam a nos manter vivos – mas são as tecnologias que são brinquedos que nos fazem querer continuar vivos.

Esses dois tipos de tecnologia são essenciais para educação: um no plano dos meios, o outro, no plano dos fins. Em tempos de amplo acesso às tecnologias digitais e à informação, devemos nos conscientizar do papel de tudo isso em nossas vidas e em nossos projetos.

(Este texto foi baseado no prefácio escrito por Eduardo Chaves ao meu livro Estratégia, Conhecimento e Competências: Visão Integrada do Potencial Humano)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s