O que aconteceu com nossa educação? Ou ‘kits da década de 70’.

As bancas de jornais vendiam toda quinzena, no cientistasinício dos anos 70, kits de iniciação científica denominados “Os Cientistas”. Dentro das caixinhas de isopor encontrávamos os componentes necessários para interessantes experimentos baseados em grandes nomes da ciência. Salvo engano (eu tinha uns 10 anos de idade na época), o primeiro da série era Newton, seguido de Lavoisier. Os roteiros explicavam como organizar os experimentos. Quebrávamos a cabeça preparando o delineamento, e nem sempre dava tudo certo. Mas o que valia era o desafio.

Quero relacionar este relato com a situação dos nossos jovens em processo de educação, hoje. Evitando lugares comuns característicos de uma crítica nem sempre bem embasada em fatos e mesmo aspectos teóricos, quero lamentar o declínio assustador no nível de interesse dos jovens (e seus professores) em coisas da ciência, da descoberta, da curiosidade, da inventividade, do prazer pelo conhecimento da natureza e suas maravilhas. Perdemos o ímpeto de busca pelo desconhecido, o ato de conhecer pela satisfação de se conhecer, e não pela obrigatoriedade de avaliações e de provas. O futuro que imaginamos na década de 70 infelizmente se mostra frustrante. Pensem no otimismo pelo futuro que sentimos em julho de 1969, quando vimos pela TV, e ao vivo, Neil Armstrong pisando na superfície lunar e declarando o “grande passo da humanidade”. Não poderíamos nem conceber, na época, uma rede interligando o mundo – e qualquer habitante do planeta – em tempo real (a Internet). Nesta época, as chamadas interurbanas tinham que ser feitas por solicitação às operadoras de telefonia, seguidas de uma espera que podia durar horas (quando conto isto para meus alunos de graduação eles parecem nem acreditar).

Em meados da década de 70 surgiram dois gigantes que revolucionariam o mundo da computação pessoal, a Apple e a Microsoft. E o que fizemos com todo o sonho de Jobs e de Gates? E aquele de Douglas Engelbart, um dos criadores da Internet? E de tantos outros que sonharam com uma tecnologia digital e com redes globais de comunicação que auxiliariam o mundo na solução de grandes problemas? E pior, o que a educação ganha com tudo isso?

A educação básica continua igual aos meus primeiros anos escolares. Sinto tristeza quando vejo carteiras enfileiradas da mesma forma que as encontrei em 1969, quando cursei o primeiro ano do antigo ciclo primário. Ou quando vejo pequenas mentes (de um potencial cognitivo imenso) ainda castradas por conteúdo inócuo e estéril. Como disse Carl Sagan, sua maior frustração acadêmica estava no fato de que o real interesse escolar de sua juventude se encontrava nos anexos dos livros didáticos, e não no conteúdo principal. E também o fato de se lembrar de poucos professores da sua iniciação escolar – aqueles que, de alguma forma, tinham provocado alguma admiração menos formal e monótona em sua mente ávida pela descoberta.

Sêneca disse: – non scholae sed vitae discimus. Aprendemos para a vida, e não para a escola. Preocupação que já acumulou alguns séculos. Pena que não nos livramos dela ainda.

Em Americana, em 14/09/2016.

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