Engenheiro-Filósofo (de minha tese de doutoramento na UNICAMP)

Michael Hammer, o respeitado guru da reengenharia, recomendou, em seu livro Beyond Reengineering: How the Process-Centered Organization is Changing our Work and Our Lives (New York: HarperBusiness, 1996), que o profissional do futuro deve procurar ser um híbrido de filósofo e engenheiro (p. 237). Embora eu seja um engenheiro que esteja fazendo um doutorado em Filosofia da Educação, não pretendo ter alcançado o perfil que Hammer considera ideal. Mas concordo com ele – e vou além: acredito que o educador esteja extremamente bem posicionado para ser esse híbrido, meio filósofo, meio engenheiro.

O educador precisa ser filósofo para não perder de vista a dimensão maior (o “por que” e o “para que” educar) daquilo que pretende realizar: ajudar os seres humanos a se desenvolver como pessoas, como cidadãos, como profissionais, tornando-se capazes de aprender em todos os momentos e durante toda a vida. Mas, diferentemente do filósofo “puro”, o filósofo-educador tem de estar preocupado com as questões práticas do “como educar”, sem se deixar perder nas discussões mais profundas do filósofo “puro”. O educador, assim, está na junção do “logos” do filósofo com a “techné” do engenheiro.

Não é esse hibridismo uma condição muito confortável. Filósofos mais puros podem acusar os filósofos-educadores de serem simplistas, rasos, quiçá até ingênuos. Os práticos engenheiros, por outro lado, podem acusar os engenheiros-educadores de terem passado inteiramente para o outro lado. Mas meu itinerário é claro: venho da engenharia e pretendo um dia me tornar um filósofo. Meu itinerário não é o oposto.

Rubem Alves disse, um dia, quando indagado se ainda se considerava protestante: “Sou, porque fui”. Acho a ideia interessante. Embora o horizonte à minha frente seja claramente filosófico, ainda sou, em sentidos importantes, engenheiro. Sou, porque fui. E essas coisas a gente não deixa de ser do dia para a noite, ainda que queira (o que não é o caso).

Isso vai significar que em muitos locais desta tese vou tocar em problemas filosóficos sérios e complicados de maneira que pode ser considerada superficial. Na verdade, vou apenas tangenciar alguns problemas perenes da filosofia: o da natureza do conhecimento, da inteligência, da competência.

Fosse esta uma tese em filosofia pura, não haveria justificativa para esse tangenciamento. No entanto, como filósofo-engenheiro, ou como educador interessado em questões práticas, passo por esses grandes problemas de uma maneira (como diriam os de fala inglesa, que se apropriam de palavras estrangeiras e as incorporam ao vernáculo com sentido próprio) que talvez seja uma mistura de cavalier e debonair.

Em Americana, 09/09/2016.

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