Da Utilidade do que Aprendemos na Escola – ou “Quando vou usar isso em minha vida?”

Non scholae sed vitae discimus.
— Sêneca

A inspiração para este texto veio da leitura do excelente artigo de Douglas Corey, publicado na revista Cálculo, edição 48 de Janeiro de 2015.

Quero discutir aqui uma antiga polêmica que permeia os ambientes da educação escolar, qual seja, o questionamento que os alunos costumam fazer sobre a real utilidade dos conceitos que aprendem em suas disciplinas, em especial na educação básica, onde o problema parece ainda mais crítico dado o grande nível de informação geral a que os alunos são submetidos pelo currículo padrão e oficial.

Por exemplo, quando falamos de Matemática, é patente a importância de aprendermos as 4 operações aritméticas – o professor justificará tal necessidade dizendo do número de vezes em que, diariamente, temos que fazer algum tipo de cálculo básico, mesmo que mental.

O aluno, por sua vez, discordará, afirmando que qualquer calculadora eletrônica (inclusive aquela contida nos telefones celulares) pode realizar tais cálculos sem a necessidade de se conhecer os algoritmos da aritmética básica. O que pode complicar um pouco mais a defesa do professor é que algumas ações do nosso cotidiano costumam ser quase automáticas, num nível tácito muito intenso, que dispensa raciocínios mais formais.

Mas quero defender, tal qual o autor do texto supra citado, que tal argumentação dos alunos pode esconder, na verdade, uma perigosa falácia – aquela da utilidade. Ou seja, preciso aprender apenas o que me será útil e de emprego direto em minha vida.

Talvez isso seja válido para aprendizagens mais técnicas e profissionais, por exemplo os processos industriais e de produção. Mas como criticaremos o argumento dos alunos nas disciplinas mais abstratas, como a Matemática? Corey afirma que vivenciamos, todo dia, uma miríade de experiências passadas que ocorrem nas atividades presentes, mesmo que não estejamos cientes disso no momento em que ocorrem. Só isso já justificaria a necessidade de ampla e eclética formação na educação básica (em todas suas modalidades: formal, informal e não formal). E Piaget já nos dizia que os novos conhecimentos são construídos a partir de experiências e pensamentos prévios, que devem ser remodelados por meio de um processo de atrito e reconstrução, de conflito epistemológico – assimilação e acomodação. Aprender é processo de remodelagem e desarranjo.

Outra forma de analisarmos o problema aqui proposto é o argumento de que não precisamos aprender o que podemos encontrar em algum repositório de informação (Internet etc). Sou professor de lógica, algoritmos e programação de computadores. Não concordo com tal afirmação. Não estudamos e aprendemos apenas pela informação em si, mas para o desenvolvimento dos processos cognitivos, do raciocínio, do pensamento crítico e criativo, e diria mesmo daquele estratégico, se pensarmos – agora sim – na utilidade de nossa educação. Afirmo mais uma vez o que tenho dito em meus escritos e falas dos últimos 20 anos: conhecimento é diferente de informação. Parece óbvio, mas muitas pessoas tratam os dois termos como sinônimos, o que gera um alto risco de incompreensão dos processos mais básicos de nossa existência, como a própria educação (e seus meios e fins).

Ora, se não desenvolvemos os algoritmos e heurísticas no período escolar, de nada vai adiantar a mera informação, como matéria prima de um processo maior e mais nobre – a construção dos conhecimentos e das competências.

Note o leitor que não defendo, aqui, o modelo arcaico que caracteriza a educação tradicional como mera repassadora de informações que a sociedade considera apropriado perpetuar (o que, em si só, é extremamente politico e ideológico, mas fora do âmbito de minha análise). Infelizmente, grande parte dos professores da educação formal (básica e superior) mal conhece os princípios epistemológicos que regem o ensino e a aprendizagem, o que impede que nossa conversa possa partir deste fato já articulado – qual seja, que o professor teria, desde o início, noção das diferenças entre informação e conhecimento.

Não faço aqui, portanto, a apologia da educação tradicional. Muito pelo contrário, sou crítico ferrenho dela, pelo menos em seu modelo meramente informacional e passivo. O que critico é afirmar que “apenas por este motivo não deveríamos considerar o papel dos processos educativos formais, na construção do raciocínio e demais competências cognitivas”.

Em resumo, a educação básica deveria desenvolver nos alunos os algoritmos e heurísticas do bem viver, nas dimensões pessoal, social e profissional. O que vale na vida é ser, de fato, competente no que fazemos, e não apenas a erudição despretensiosa que pode ser desenvolvida. A escola justificaria, então, seus modos de atuação, e reduziria as críticas dos alunos, até porque estes estariam mais cientes do que fazem na escola. Lembremos que a visão de mundo que temos é a interpretação individual e subjetiva que dele fazemos, e não a mera informação externa que dele adquirimos por meio dos sentidos. Este debate epistemológico (aquele da tabula rasa) já parece encerrado há muito tempo, e de forma consensual. Mas solidifica o argumento aqui apresentado.

Em Americana, 08 de setembro de 2016.

 

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