Marvin Minsky (in memoriam)

Julho de 1998. Tinha acabado de comprar um exemplar do clássico Society of Mind, de Marvin Minsky, um dos criadores da Inteligência Artificial junto com John McCarthy. Considerado o primeiro hacker da história, fundou o lendário Artificial Intelligence Laboratory, no MIT, origem de pioneiros da computação como Richard Stallman, Seymour Papert e Danny Hillis.

Era hora do almoço, e me dirigi ao Legal Sea Foods para um rápido lanche, como fazem os americanos. E quem eu vejo num canto do restaurante? O próprio Marvin Minsky!

Sem perder a oportunidade, pedi a um garçom que solicitasse um autógrafo no livro. Para minha surpresa, Minsky me acenou pedindo que me dirigisse até ele. Sensação de grande satisfação – e de arrependimento, ao mesmo tempo… 🙂

E lá fui eu, acanhado e com medo do nível de Inglês que eu teria que desempenhar. Ele me perguntou de onde era, e o que fazia no Instituto. Contei de minha participação na reunião do 2B1 Foundation for the Digital Future of Children, no ano anterior, e de minha volta ao MIT para a continuidade de contatos que tinha estabelecido no evento (inclusive com Mitchel Resnick, que seria meu orientador do estágio de post-doc em 2006).

Após uns minutos de conversa, Minsky me disse para ir ao seu escritório – no Media Lab, no período da tarde do mesmo dia. Mal pude esperar. E foi como entrar num recinto místico. Olhei para as prateleiras de livros, para sua mesa, para a decoração da sala. Tentei reconhecer alguns dos títulos (“- O que será que Marvin Minsky lê?”, pensei). Ele me contou em primeira mão de seu novo livro, que já escrevia há anos, e que teria o título de Emotion Machine. Falou da Inteligência Artificial, de suas oportunidades e de suas limitações. E me disse que tinha escrito parte de Society of Mind em Campinas, numa de suas vindas à UNICAMP – fato realmente marcante para nós brasileiros.

Algum tempo depois escrevi para ele fazendo alguns questionamentos para a minha tese de doutoramento, na UNICAMP. Falei de um assunto que me intrigava: – por que um homem com 80 anos de idade, detentor de tanto conhecimento em seu sistema cérebro-mente, não pode empregar de forma integral e eficaz tanto potencial? Ao que ele me respondeu:

“That raises several questions. A human brain has more than 10**12 synapses, and if these were arranged in an efficient, reliable memory, that would be very large. However, there are no good experiments that show how much a person really remembers and no evidence that this is even as much as 100.000.000 ‘units’ of knowledge. It does seem clear that a person must know at least 10.000.000 such units. It does seem clear that at some time in the future, we should be able to connect large externals systems to brains, and then develop good ways to use them”.

A última frase pareceu dar um ar de previsão do futuro à sua resposta, o que a enriqueceu sobremaneira. E à minha tese também.

Foi como conversar com Albert Einstein sobre Física. Eis a impressão que ficou.

++ O professor emérito do MIT faleceu em janeiro de 2016. Fica aqui minha humilde homenagem.

Em Piracicaba, feriado de 7 de setembro de 2016.

Anúncios

Um comentário em “Marvin Minsky (in memoriam)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s